quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Poesia da Garota

Use
Me use
Não garoto, ouse
Ouse garoto, use
Ouse para usar

Fala
Fala baixo
Não garoto, sussurra
Sussurra, baixo
Sussurra para usar

Conversa
Conversa besteira
Não garoto, não fala sério
Fala sério besteiras
Fala besteiras para usar

Julga
Não julga
Não garoto, quem é você pra julgar?
Ora, somos iguais
Não julga, garoto, para usar

Toca
A música que eu gosto
Gosta, da minha música
Sim garoto, eu sei que gostas
Gosta, garoto, para usar

Senta
Senta ao meu lado
Garoto, senta aqui !
Não podes estar em lugar melhor
Senta, garoto, para usar

Usou várias vezes
Esperto garoto
Agora garota, vamos?
Pra onde garoto
Usar, usar o amor.

Trilha sonora: "Use Somebody" - Kings of Leon

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Tenho?

Sabe, ando ensaiando discursos, atitudes, trejeitos e tudo mais esperando aquela hora. Tenho pensado na roupa, na cor do batom, na bolsa e se finalmente irei dá um grau nas minhas unhas. Tenho melhorado meu jeito, me tornando flexível e menos estranha. Tenho preparado meu espírito e um espaço na minha bolha para abrigar mais alguém. 

Tenho olhado pra lua fazendo frescuras, imaginando assim a paixão de alguns casais. Não permito mais reprodução aleatória, mas prefiro escolher aquela música, sabe? Aquela que tocou na hora errada que era certa e que agora me atormenta toda hora. Ufa, período grande, perdi até o fôlego. 

Tenho reclamado de coragem, mas me vejo como a mesma covarde de sempre. Tenho reparado nas pessoas com mais doçura, mas ainda julgando-as por uma espécie de moral que não consigo superar e que me faz a mais chata das criaturas do planeta. Tenho fixado gostos, objetivos e a cada dia busco explorá-los. 

Tenho dormido menos, o que me faz mais alheia e sonolenta durante o dia, me fazendo perder as melhores partes. Tenho esperado atitudes, acreditado em suposições e ando embarcando em devaneios. Tenho? Estranho, às vezes me vejo aleatória em meio a multidão. 

Tenho? Será? Acho que meu tesouro é efêmero, mas não menos importante, saca? Tenho sorrisos, elogios, carinhos (até quando não quero). Tenho impressão de que os outros me sistematizem bem melhor que eu mesma. Tenho (...) em abundância dúvidas. E ainda pego as alheias para mim. 

Acabei de chegar de uma viagem de ônibus, discuti o futuro, relacionamento, fiz uma fofoquinha e reclamei da fome (tudo isso e ainda um mundo paralelo). Tenho pensado muito no meu paralelo, em como seria, em como lidar. Sabe, têm coisas que se tornam escapismo, o problema (ou não) é quando a gente quer fugir toda hora, sem poder, sem ter, sem saber. E o tenho do começo? Desceu antes da minha parada.

Trilha sonora: "Tendo a lua" - Paralamas do Sucesso

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Me passa a barba

Me passa a barba
Hoje eu quero aspereza
Superfícies lisas 
Me causam fadiga

Me passa a barba
Hoje eu quero brincar
Sempre o brinquedo é legal
Quando eu não posso ter

Me passa a barba
Sou mulher
Amo teu amontoado de pelos
Não aceito um homem que não queira tê-los

Me passa a barba
Feliz o que tem o poder do arrepio
Barba sempre assanha
Belo veneno antimonotonia

Pensando em barba
Penso em amor
Amor sacana
Sem pudor

Guri, não faz a barba
Deixa a proeza no teu rosto brotar
Olha, eu faço poesia
Se jurar não cortar

Proíbo lâminas
Saiam pra lá
Cresçam as barbas
Eu quero amar

Trilha sonora - "O meu amor" - Chico Buarque

sábado, 3 de novembro de 2012

O tempo e eu

Sentindo falta de um dos deuses mais lindos (...) Tempo, por que se foi?  Entre uma rotina maçante e cronometrada cheguei ao ápice da falta de criatividade: não conseguia ao menos pensar na vida quando em uma viagem de busão perdia 2 horas do meu deus mais lindo. Mas aí, eu paro no contraponto. Não ter tempo é mais uma artimanha do ser humano conformado, temos que colocar a culpa em alguém e o tempo parece mudo, então fica mais fácil ainda livrar-nos do direito de resposta. Como diz a canção: tempo, tempo, tempo, tempo, vou te fazer um pedido (...) 

Aí eu pergunto, qual? Somos tão bobões que pediríamos mais tempo. Pra quê? Pra desperdiçar com brigas bestas, pra falar mal sem poder fazer melhor, pra fechar os olhos diante de um dia lindo e produtivo, mas preferir apegar-se em reclamar da fila que demorou 30 minutos? De fato, pecamos na vontade. Na vontade de querer mais, sem perceber que o que é nosso está ao nosso lado. Esse discurso apreciativo parece tão utópico e bobo, mas é aquela história da vovó, lembra? Busque o lado bom das coisas.

Me afogo na rotina, traço prioridades e acabo deixando de lado aquilo que mais me dá prazer. Escrever uns versos, escutar Cazuza, escutar as histórias de vovó. Vejo o quanto minhas prioridades estão erradas ou no mínimo não me fazem tão feliz. Nessa falta de tempo, a gente acaba deixando: família, amigos, amores, gozos verdadeiros, acabamos por perder os sabores. Insossos, estamos à levar a vida, apegados a convenções, medos bestas e falta de sorrisos. O mal foi começar a fazer planos, idealizar demais, formamos tanta perfeição no mundo das ideias, que ao olhar ao redor parece que nada está suficientemente a nossa altura e nisso posso até concordar.

Nada está a nossa altura, estamos tão baixos que nem ao menos vemos um ao outro. Pequenos, mas exalando falsas grandezas para alimentar o tal ego. Pequenos, afogando-se no tempo que não dá pra controlar. Quando tão cheios de nós batemos no peito pra dizer: "Estou sem tempo", é a doce ilusão de que por um momento somos a rédea e não o cavalo de nossas vidas. Quanto ao deus mais lindo, sinto sua falta. E hoje vejo que só o tenho para as coisas mais chatas. Façamos um acordo para nunca mais quebrar, que nunca me falte tempo pra pensar antes de dormir. Fazer isso é quase um acordo de sanidade e conduta, lembrar do que eu fiz, retirar o errado, me deitar em culpas, mas ser envolvido por sonhos que darão forças para que a ampulheta se vire novamente.

Trilha sonora: "Bandeira - Zeca Baleiro".

domingo, 30 de setembro de 2012

Quero ser âncora

Tão entediante quanto um quadrado, às vezes a rotina sufoca. A gente reclama, mas no fundo acha legal essa história de dia cronometrado e cheio de tarefa, é bom o gostinho de dizer: nossa, como estou cansado! Queremos ser ocupados, nem que seja com alguma futilidade. Até se cansar de não fazer nada se tornou um cansaço produtivo. Olhando pro mar vejo que ele tem tudo a ver com isso, pelo menos em partes.

Previsível que só ele, enche e vaza todo dia, tudo bem que a hora muda, mas é só uma questão de tempo. Aí vem a parte mais humana do mar (...) traiçoeiro, sabe fingir calmaria e surpreender com maresia forte. Encantador, te leva pro fundo em dois tempos e você vai, crente que está metido ali só até a cintura. Hmmm, o mar tem cada vez mais a ver com tudo isso (...) Muitos apreciadores, quantas fotos e momentos felizes, mas ainda misterioso. Pra onde vai toda essa água quando a maré baixar? Fazendo parceria com o sol ele é quase imbatível, às 18 horas então, ele se acha. 

Aí vem o homem, todo metido: quero navegar por essas águas. Sou tão imenso quanto ele, não aceito não fazer parte da paisagem. De barquinho em barquinho, agora temos navios. Com diversas finalidades, mas ainda cultuando a ideia original de domar esse mar. Flutua, flutua, mas uma hora quer porto seguro. Assim é o humano, que cansa de rotinas, ainda que precise delas. Querendo novidades, vai à museus, traça novas rotas, descobre o Brasil.

Navios cheios de pluralidade, uma engenhoca bonita, desafiadora. Ainda que com medo, desafia o mar. Lança uma âncora, finca raízes, por um tempo isso agora é minha casa. De muitas coisas que queria ser, âncora é uma delas. Ainda que vague por muitos portos, sempre finca em algum lugar. Ainda que prenda, um dia liberta.

Queria ser âncora, saber que pedras são passageiras e que a imensidão é eterna. Queria ser âncora e ter a tristeza de descer para a prisão, mas a certeza de que na subida haverá nova aventura, uma nova viagem, um novo porto. Afinal, ser âncora é aceitar prender-se, mas nunca no mesmo lugar. 

Trilha sonora: "Maresia (se eu fosse um marinheiro)" - Adriana Calcanhotto

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Eu não queria

Olhe ao redor, converse e veja como todo mundo quer alguma coisa. Um carro, beleza, notas, tudo se torna uma busca implacável para conseguir algo. Pare, pense, veja o contrário, o mundo também está cheio de "eu não queria". Eu não queria ter dito isso, eu não queria ter chorado, eu não queria ter "querido", são tantos "eu nãos" que fica até chato. 

Engraçada nossa tendência ao conflito, parece que tudo que possui vários lados nos excita, tá aí o porquê de um cubo mágico no entreter tanto. Se dois lados já bagunçam nossa cabeça, imagina seis. Pare, pense (repito isso porque são comandos difíceis para o ser humano), será que esse eu não queria é sincero? Agora parece cruel e errado, mas na hora foi o melhor a ser feito. 

Quantos sentimentos carregam um eu não queria? Frustrações, decepções, erros, bobagens, mas no fundo isso é bom. "Só me arrependo do que não fiz", acho essa frase tão bobinha e covarde, vai ver que você nunca jogou uma pedra na janela do vizinho e fica aí dando uma de inconsequente. 

Fico em dúvida do que é pior: uma vida cheia de eu não queria ou um Epitáfio do Titãs? Sei lá, pensando bem, pode ser a mesma coisa. "Eu não queria", a mais bela contradição do livre arbítrio. Tenho o direito de escolher, mas sempre faço o que me deixará um peso depois, talvez seja a necessidade de guardar uma marca, vai saber. Olha como as coisas são, o eu não queria já foi um eu quero. Desejos e humanos, uma combinação nem sempre saudável, às vezes até desastrosa. 

Eu não queria muitas coisas, situações e pessoas na minha vida, mas por enquanto prefiro querer. De vez em quando posso usar um eu não queria pra dizer: "eu não queria que fosse tão rápido". Sacolas cheias de culpas, desânimo e ódio, impedindo você de carregar sonhos, desejos e amor. Eu não queria que você deixasse de querer, afinal de que vive o homem? Desejos sacanas, quereres fantásticos, se quero, existo. Por isso quero, quero e quero, não necessariamente isso ou você.

Trilha Sonora: "Preciso Me Encontrar" - Cartola

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Meu eu morango

Alguns dias de ócio, mente vazia (em tese). Engraçado que a mente nunca vaga sem direção, sempre tem um ponto de fuga, um cais, um lugar onde ancorar. O ser humano nega, mas é tão influenciável. Uma música, uma foto, um cheiro (...) Tudo isso faz desnortear, perder o foco, mudar de humor. Somos tão sensíveis, feito morangos no nordeste. 

Esses mesmos morangos, petulantes na grandeza do vermelho, no tamanho, no sabor, mas que escondem a fragilidade de tanto cuidado para chegarem pelo menos a durar. Tanto cuidado pra tão cruel destino: serem comidos. Mas feliz é o morango, ainda que no triste fim é capaz de proporcionar prazer ao devorador. Com chocolates então, hmmmm, é uma delícia. Não ia falar de morangos, vejo agora que sou humana, perco o foco e sou influenciada, mas é por uma boa causa.

Paro em uma reflexão: quanto mais ansiosos somos por uma vida elétrica, alucinante e sem lei, mais nos escondemos do que existe lá no fundo e nos pede pra parar. Quanto mais ansiamos por multidões, lá dentro existe um desejo de singularidade ou quiçá uma solidão de dois. Onde há julgamentos, por vezes excessivos, de que o mundo está errado, muitas vezes é só o desejo de que tudo fosse como a gente quer.

Desejos, desejos, desejos, nada mais humano. Tão humano quanto sucumbi-los. Ainda há um segredo nessa máquina que nem mesmo sei o fio da meada. Uma espécie de "start" que aciona tudo aquilo que me faz viva, ansiosa e pulsante. Acho isso muito bom, talvez seja tão bom que nem mesmo o desejo saciado possa superar.

Agora lembrei-me dos morangos...e que humanos morangos. Existe algo mais humano que morangos? Não estão disponíveis todo tempo, são frágeis, mas com uma camada de agrotóxico se tornam terríveis. Essa mesma ainda abriga o que temos de melhor, mas para deliciar-se é preciso morrer um pouco.

Nossa, realmente somos morangos. Um dia tão caros e no outro não passamos de uma promoção (...)

Trilha sonora: "Porta-retrato" - Roberta Campos