segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Não deixa ar


Eu não sei rimar. Não sei esperar. Passo para não olhar. Me perturba qualquer que seja o ar.

Não sei conviver com o suspiro. Quero tudo muito logo. Me interessa o desatino. Não gosto de me acostumar.

Quando vejo o costume, já desenho o sofrimento que vem. Já me vejo na cena posterior. A película que me fará desacostumar.

As palavras sempre me exigem sofrimento, gelo e um pouco de álcool. Parece não ser possível passar por aqui sóbrio.

Se isso gira...eu quero ser tonto.

Deixa que eu vire teu rosto pra te beijar. Gosto das coisas pegadas. Gosto de trocar suor.

Não me importa tua pele pouco uniforme. Essa barba por fazer. Que cada vez que tu coças me tira do tédio.

Não deixa ar. Sufoca. Minha vontade e desejo de mais.

Embalados a vácuo - só assim seremos felizes. Se é que um dia isso existiu.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O conto do quase

Estou em busca de conexões novas. Sem abandonar o velho hábito de me presentear com momentos só meus. As pessoas tiram não sei de onde, o direito de machucar corações. Sou bem ruim de legislação, mas sei que esse crime acontece. Às vezes é sem querer. Sem a intenção de matar. Mas dedo no gatilho nunca aponta pra coisa boa. 

O fato é que sou daquelas pessoas que a gente abandona no altar. Pra mim parece o ápice do amor. Mas quando menos espero, me deparo com uma carta de recomendação na geladeira: por favor, desista de relacionamentos. Eu considero carta, mas na verdade é um bilhete. (que falta de consideração!) Saiu de casa sem gastar comigo ao menos um dedo de tinta na caneta. (que fase!)

Foi embora sem fazer barulho no portão. Sorrateiro e maligno. Pensando bem, quem sempre gritou aqui fui eu. Dona da bagunça, eu puxava a roda. Quando eu não metia o pé, não tinha samba. Belo covarde! Vai em silêncio, mas deixa meu juízo aos gritos.

O erro do intenso é procurar boa sombra. Quem entende tamanha vontade de viver? Quem pode segurar planos tão lapidados? Na arrumação da bagunça, às vezes não tem espaço pra mais um. Ainda mais se ele é artigo de decoração. Prefiro um ventilador de teto bem barulhento...ao menos deixa uma brisa quente ao rodar.

Eu não aceito, não aceito não...ver mais um quase indo embora. Vai entender, talvez foi por isso. A gente quase não se via, quase não se falava, quase sorria, quase se completava. Como vovó diria: se não fosse o "quase", a gente "era". Até que foi "era". Era uma vez, dois quases...

Trilha sonora: "Quase nada" - Zeca Baleiro

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Bilhete de rodoviária


Descobri-me um pouco rodoviária
Cinza, estranha e incomum
Momentos de vai e volta
Coisa de quem deixa ou não saudade

Um terminal com falhas
Panes de sistema e erros graves
Bilhetes fora de hora
Choros sem lenços e tchau

Lembrança vaga e forte
Coisa de quem viveu se despedindo
Sempre tão perto do longe
Rodada em rodoviárias

Todo mundo ali é um pouco triste
Todo mundo é triste quando é acostumado
Lanches e presentes ao fundo
Background de quem vai longe

Pinceladas de rodoviária
Vida agitada com muitas emoções
Quem eu amo nunca esteve tão perto
Hoje eu sei amar...só de longe!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Tesão no teu nome

Que bom que não te conheço
Que lindo nossos desencontros
Não saber tuas preferências
Nem teu sorvete favorito

Esse desconhecimento, que faz cada encontro ser o primeiro
O ciclo comprido que se repete em uma vastidão de dias
Eu estico a prosa
Fazendo versos

Não sei teu gosto por poesia
Pode ser nenhum
Mas eu escrevo até para as pedras
Me encanto fácil pelo silêncio

Bonitos nossos passos desencontrados
Essa coisa de não saber o que é
Perdidos não só no tempo, vagos no mesmo espaço
Que tesão é praticamente só saber teu nome

Trilha sonora:
"Até que nada aconteça, somente eu e você, no mundo da minha cabeça"
No dia que você chegou - 5 a seco 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Ah, matemática!

Venho pensando esses dias em qual seria minha luta diária. Logo eu que optei pelas humanas e sociais tenho calculado muito nos últimos tempos. Já estou até calculando quantos parágrafos irei escrever para que esse texto não se alongue tanto. Ando não olhando mais dez dedos nas mãos, mas contabilizando dez possibilidades de lembrar o que tenho que fazer.

Tenho lutado muito para ser um número. Uma estatística bem sucedida traduzida em uma placa, um placar, um cartão ou em um telefone. Estou traçando sagas numéricas em inscrições, quantidade de páginas e referências. Ah, matemática! Como eu te odiei. E hoje você vem me dando esse troco. 

Tempos paradoxais e metafóricos. Fulguram as figuras de linguagem para dizer o não-dito. Perco-me em calcular o que não sei somar. Divido-me em tantas, subtraio meu eu e multiplico horas sem excitação. Em meio há tantos números, eu só queria ter com quem contar.

Trilha sonora: Luz Antiga - Nando Reis

domingo, 2 de novembro de 2014

Sobre sair de casa sem esperar



A poesia está escassa
Muita rotina
Pobre menina
Era isso que sonhavas 

Um despertador
Uma bolsa pesada
Muitas faturas
Que te fraturam

Era isso que queria
Um cronômetro zerado
Ligado ao primeiro suspiro matinal
Um cronômetro que luta contra si

Esperou muita coisa
Cronometrava a cada passo
Quanto tempo dura essa amizade?
Por quanto tempo faremos juras de amor?

Esperou pelo dia do "sim"
Espantou-se no dia do "não"
Já cronometrava o fim
Isso não foi uma surpresa
(consolava-se)

Libertou-se do cronômetro
Só não queria que o tempo se fosse
Olhou pro lado, sem ressalvas
Tirou o véu e viu um sorriso

Você sempre esteve aqui
Mas o relógio tornava seu pulso inebriante
Queria ser o teu relógio
Contar teu tempo e fazê-lo meu. 

"O acaso é amigo do meu coração" - "Velho e o Moço" - Los Hermanos

domingo, 19 de outubro de 2014

Com que roupa eu vou, pro samba que você me convidou?

Passei muito tempo pensando em quais seriam as legendas das nossas fotos. Se usaríamos nossas músicas favoritas ou citaríamos os filmes que amamos assistir. Cronometrei o tempo do abraço, separei a roupa para debutar e fiquei na dúvida se estaria de óculos ou não. Muito chato andar nessa cidade marcada com outdoors que escancaram nossa campanha bem sucedida de companheirismo. Mas tudo isso de certa forma já passou.

O que nos alimenta deve ser uma dessas barras de cereal diet, que não enchem a barriga de ninguém. E olha que um dia pensamos em viver de amor. De certa forma, não estamos preparados, nossos sonhos estão bem mais fortes e próximos separados. Vemos o nosso encontro com um encaixe, em uma rotina onde sobra pouco tempo. Em um check-in distante, numa moldura 3x4, congelamos nosso melhor momento. Como essas bandas que terminam no auge pra deixar mais saudade nos fãs. Que bestas nós somos! Não aguentaríamos o peso de uma turnê.

Guardei o pôster, o single na fita, o autógrafo em forma de beijo. Esse amor só precisa de uma boa gravadora que banque essa loucura. Produzido pelo destino, com clipe em câmera na mão e com "refrão pra levantar o bloco", esse amor ainda vai dar samba! Com banda indie e pedra de reponsa porque amar exige um certo desalinho.