segunda-feira, 1 de junho de 2015

É hora de perder o voo


Até agora não sei o que falar desse filme. Não sabia se escolhia prosa ou poesia para explicar uma madrugada de domingo bem aproveitada. Começou o filme, atraso no voo. Eu realmente tive que respirar fundo para acompanhar o "timing" desse casal. É sempre bom assistir gente que vai direto ao ponto. Diálogo cansa de vez em quando. Não se assuste com a pegada "cala boca e me beija". 

Lembrei das aulas de Maria do Carmo. Bauman passeando...Somos produtos do espaço. É incrível perceber como a cidade reflete quem somos. Ou vice-versa. A gente projeta a cidade a cada passo, a cada esquina e a cada happy hour que acaba colocando política na mesa. 

Sonhos contaminam. Para o bem e para o mal. É necessário aceitar que existem pessoas que não pensam no amanhã. Tem gente que vive o hoje e é muito feliz. Acredite! O que significa ser promovido? Ganhar uns dinheiros e perder mais vida? Não sei. E um diretor de criação? Existe mesmo? Imagino a criatividade seguindo fórmulas matemáticas e só visualizo um acidente lá na frente. 

A cidade não para. É um fluxo preso. Estamos sempre diante de uma sobrevida. "Ponte Aérea" é uma crônica sobre o amor, o tempo e o não-dito. Há um oxigênio preso. O "eu te amo" está na garganta. A cada declaração de amor alguém perde o voo e se salva para sempre de um terrível acidente. 

Assistam essa porra! 

Trilha sonora (presente no filme): "Você e a Brisa" - Dimitri BR e Cristina Flores
"A brisa faz carinho"

terça-feira, 26 de maio de 2015

Desculpa ligar


- Alô?
- Oi.
- Não entendi a ligação.
- Eu também não entendo.
- Já vai começar com teus jogos retóricos?
- Nunca me dei bem em jogos, nem me lembro da última vitória.
- Isso não importa muito. Afinal, nos perdemos juntos.
- Nossa, era eu quem gostava de jogos retóricos.
- Estranho escutar tua voz. Faz tempo que aposentamos o diálogo.
- É, eu cansei de só digitar.
- Quer continuar conversando?
- Você sabe que não sei dizer não. 
- Quando eu desligar você vai ficar pensando na gente?
- Você partiu e deixou minha vida como um telefone fora do gancho.
- Como assim?
- Já não ligo pra nada e permaneço ocupado pensando na gente.
- Bela comparação!
- Péssima hora pra escutar tua voz.
- Contigo não existe hora ruim.
- Desliga primeiro.
- Acho que não temos mais idade pra joguinhos juvenis.
- Vou desligar!
- Naaaaaão!
- Quer continuar jogando?
- Teu jogo me vicia. 
- Sempre parece má ideia te ligar.
- Concordo.
- Vou dormir pensando.
- Poderia dormir agindo.
- Hmmmm
- Faz um favor: não me liga!
- Sério?
- Muito sério. Não ocupa mais a minha linha sem a intenção de ficar. 
- Nossaaa! Tudo bem.
- Teu jogo é viciante, mas amar é muito mais. Decidi fazer amor e rasgar os joguinhos. Me joga contra a parede, joga tudo na minha cara, joga as cartas na mesa, joga limpo. Quando for capaz, me procura.
- Eu sabia que ligar seria ridículo.
- Nada é mais ridículo do que fingir "não ligar".

Trilha sonora: Pelo Interfone - Cícero

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Inquietações de Maio

Realmente não é fácil tentar acertar. Fico imaginando como o mundo seria lindo se as pessoas deixassem claro o que desejam. Não entendo todas essas relações baseadas no não-dito, que só servem para minar nossa convivência. Engraçado essa inversão de valores onde é "bravo" ser falso. Deve ser por isso que as pessoas andam se assustando tanto com a verdade. Dói tanto saber que alguém gosta de você de verdade? Dói dizer que já não existe interesse? Dói dizer que errou?

A vida está cada vez mais dependente de pequenas mentiras que se tornam grandes negócios. A tristeza é gostar tanto do mundo e vê-lo caminhando para um espaço inabitável. Ainda bem que existem conversas libertadoras, abraços sinceros e saudades com desejo de volta. Para viver aqui é preciso ser viajante. Não é possível amar no mesmo lugar. Bom mesmo é ter alma no sorriso e sonhos nas mãos. 

Trilha sonora: "A Rede" - Lenine


terça-feira, 31 de março de 2015

Amores nunca são platônicos


Afinal, o que é verdade? A maior discussão da ciência ou um falso consenso? Certamente a verdade está longe de concordar com o amor. Amar exclui a ciência e suas possibilidades. Amar é entrega, sem taxas. É um mergulho sem bomba de oxigênio, onde a única certeza de vida é encontrar amor lá embaixo. Mas então, o que o platonismo tem a ver com tudo isso? Quando amamos platonicamente somos verdadeiros. Vivemos um amor sem ambição, onde nada é pedido em troca. Apenas damos graças por um ser existir e nos permitir sentir admiração e ao mesmo tempo suspirar por qualquer movimento, palavra ou atitude. 

Amor platônico é a essência da doação. É a alegria gratuita, mesmo que na ausência. É a admiração que exclui os defeitos, mesmo não sabendo direito quão terríveis eles podem ser. Amar de forma platônica é ser meio louco. É desejar além do toque. É nunca se frustar com a mensagem que não chega. É seguir os passos sem perguntar o caminho. É apenas ir. Sempre em frente.

Por que não amamos sempre assim? É tão gostoso. Fazer planos e mais planos, falar sem a cobrança de escuta, amar pequenos detalhes. Hoje em dia as pessoas só amam quando se conhecem além da conta - que caretas! O gostoso dessa história é quando um guerreiro sai para batalha e escancara esse amor utópico. "Cara, sabia que eu te sigo?". Não é coisa de Instagram, é de seguir pela vida. Admiro tuas mechas brancas, teu romantismo e esse olhar de galã. Eu te sigo. Sem a cobrança de trocar likes, mas é bom te ver existir.

"Cara, sabia que eu te observo sempre". Esse jeito frágil de mentira. A nerd mais apaixonada que eu conheço! A fala compassada de quem fala com conhecimento de causa. A facilidade de encantar com gestos. É, eu também te sigo. E assim descobrimos que amor platônico é autoconhecimento e por isso exige coragem. Podemos casar platonicamente, pois amar assim é reconhecer que a paixão dispensa verdades absolutas. Vamos casar desse jeito: sendo um casal de platônicos. Cerimônias e longos namoros nunca vão nos convencer. Amar é pra já. E platonicamente nos temos pressa. 

quarta-feira, 25 de março de 2015

Quando a gente agradece


Um dia a gente agradece. O livramento ou esquecimento. As várias idas que não foram e as juras secretas que se tornaram mentiras confessadas. Um dia a gente agradece o beijo roubado, a mentira sincera, os tantos "nãos" para um "sim" valer a pena. Pena, que pena! Hoje pago a pena por ser tão leve e móbile.

Um dia a gente agradece. Pelo simples respirar. O "bom dia" do motorista, a felicidade do guri. Um dia a alma afaga e a gente agradece por não ter sido "nós". Dois desatados em desalinho. Um dia a gente agradece pelas memórias...

segunda-feira, 9 de março de 2015

Mulher, não. Puta mulher!

Mulher
Que coisa és tu?
Já não cabe em planilhas
Dispensa os bons modos

Apavora quem sonha dominar-te.

Quem és tu brisa serena
Ou furacão no mar de ressaca
Cortou as saias
De aquarela pinta a boca
E no mundo pinta o 7


Quem és tu menina ousada
Que ousou responder e descobriu a voz
Centro de si, equilíbrio da alma
Escolheu subir no salto quando quiser
Cansada das rasteiras da vida


Quem exige beleza em tuas curvas
Não conhece tuas facetas
Que fazem de lixo luxo.
Entre abusos de poder, abusou.
Abusou do silêncio, e hoje grita.


Não por histerismo, chilique ou TPM
Grita por direitos
“Sentar, quicar e rebolar?”
Nunca foi tão puta
Puta da vida, puta de si
Uma puta mulher!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Bicho sentimento


Sinto muito
Sinto tudo
Bicho de sentimento
Terceira lei de Newton

Sentido
Vejo poucos agora
Sinto não ter jeito
Já não sinto brisa, só tempestade

Meu desespero é sentir
Que sinto só
Ou que não sinto o mesmo
Sinto muito!

Sentir que a paisagem não muda
Sentimento de angústia
Lamúria de quem sente
Pouco inocente (sente) culpa

O mundo gira
Me excita
Compasso gostoso
Ninguém gosta de brochar